Confissões
V, meu amor,
E se eu te dissesse que ainda agora te procuro? Que voo incomensuravelmente longe buscando-te. E que te amo para além de qualquer convenção.
Está um sol ameno. Um fim de tarde vulgar. Na estação, “na vida desse meu lugar”, viajo indefinidamente enquanto me ocupo mentalmente com pequenos lugares, pequenas emoções, lista de mercearia mental.
Enquanto me banho com o que resta do sol neste final de tarde igual a todos os que já passaram, mas que não sinto igual, penso:
- quero me reaproximar da minha identidade. Do que de inspirador há em toda a gente.
Escrevo. E escrever não é um acto mecânico, técnico ou mesmo artístico. É como abraçar um ente querido que regressa após longa ausência. É como expressar uma emoção acalentada e abafada há tanto tempo. É um suspiro de alívio e simultaneamente uma reconstrução. Imagino cada palavra, oração, frase composta, como tijolos da minha torre-angústia, que abalam e me deixam vazio para um tijolo novo. E enquanto o lugar não é preenchido, sinto o alívio de estar mais leve. Disponível, até.
Escrever assim é uma felicidade para mim. Estou emocionadamente feliz.
Mas é tão dificil. É como uma janela que não consigo abrir e respirar o ar fresco para lá desta casa. Do dia-a-dia que habito e consumo.




