Opacidades reveladas

Falar é o meu jeito mais secreto de calar

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Por toda a minha vida

Eu sei que vou te amar.
Por toda a minha vida eu sei que vou te amar.
(Tom Jobim e Vinícius de Moraes)

És uma espuma quente e profundamente interior
surges como uma certeza dissolvente e eternamente íntima

Por toda a minha vida eu sei que vou te amar

Tu

M., és o meu murmúrio sobre a aurora.

Sempre que o sol me alcança, a chuva me acorda os sentidos ou o vento me confidencia suaves lembranças de um tempo longínquo, eu sinto-te neles. Eu sei que me inspiras melhores sentimentos e mais elevadas emoções do que as que consigo ser. Eu sei que me suportas e que me acompanhas o passo inseguro.

Sempre que vou para um lugar dentro de mim, espero encontrar-te e compreender-me. Reflicto sobre as canções que escrevo, sobre a dança que danço com aqueles que amamos e passo a mão sobre a testa, pesando as dificuldades-desafios. Não há instante em que não pense se estarás orgulhosa de mim.

Mas, tudo, acima de tudo, tu. Obrigado, infinitamente obrigado.

Wild Horses

Download: Wildhorses.mp3

E vêm vocês, cavalos selvagens.

Consigo ver a vossa silhueta heróica sob o sol ardente da vontade que tenho de vos seguir.

Wild horses, hoje quem sou é a renúncia que eu escolhi para mim.
Mas caminho convosco.

Je vois sur votre chemin

cume

As minhas crianças…
Enquanto aqui estou, penso nas minhas crianças, a maior missão, o maior papel da minha história-vida. Penso nos seus caminhos, nas suas integridades, nos seus corações pulsantes.

Sobre os meus dedos, folhas ao vento, erguem-se os seus movimentos suaves. Crescem viçosas sob o apelo do sol.

Testemunhá-las alimenta cada célula que me constitui, constrói o meu lugar de esperança.

Fizeram-me querer chegar aqui, a este promontório. Do nada, por sua causa, a minha vida tem promontórios.

Je vois sur votre chemin. Je vole sur votre chemin.

Mãe, minha oração de coragem

Se tivéssemos falado sobre este momento, a minha mãe pedir-me-ia que sorrisse.
Que sorrisse à dor de a não ter, lembrando-me que ela não era minha.
Que sorrisse à frustração de não ter agido, em algum momento, de outra forma, recordando que o afecto não se mede nos gestos mas no que persiste deles e de nós nos outros;
Que sorrisse ao medo de não conseguir viver sem ela, tomando consciência que ela vive em mim, nesta lucidez e calma imensa que é dela e que ela me deixou.
E por fim, que sorrisse à saudade, ao lugar deixado vazio, preenchendo-o, completando-o, sempre em sua memória e honra.

Não há maior oração de coragem, poema de amor ou canção revigorante do que a vida da minha mãe.

(outras palavras: cabelos_ao_vento, antes viagens que farmácia)

Sou toda a gente em mim.

Donde me coloco, observo distâncias que não existem na realidade e meço gestos e olhares que falam comigo como poemas ou canções. Todos trazem em si uma história e uma missão de valor incalculável e indizível, que nem sempre se revela mas que subjaz a toda e qualquer acção. Todo e qualquer pensamento. Toda e qualquer emoção.

Dedico a minha vida a conhecer o que é brilhante e sombrio em cada um e fico sempre contagiado pela epopeia que é a vida comum. A vida comum de cada um de nós.

É de tal forma única, múltipla, intensa e profunda, a vida comum, que eu não cesso de me surpreender. A todo o momento sou ensinado acerca da minha pequenez, acerca do valor da autenticidade e acerca do valor inequívoco que encerra o mais comum de nós. Tu, por exemplo.

Quero com isto dizer que sou um projecto inacabado e imperfeito, irresolúvel e reformulável, influído, participado e construído por ti. Quanto mais testemunho quem és e quanto maior é a tua presença na minha vida, mais real, mais singular e mais completo eu sou. Por isso, porque fazes parte da minha identidade em construção, porque me inspiras a ser eu, volto para ti, hoje, os meus Parabéns.

Obrigado.

Saudades

Lembro-me de ficar defronte o escuro da noite
e sonhar com a luz que vinha depois.

Lembro-me de ainda não ter chegado.
De cerrar os punhos, os dentes; de latejar de vontade.

Lembro-me das palavras, da desenvolta canção.
Do ritual de ser livre por uns momentos.

Lembro-me e tenho saudades.

Acreditei que já tinha encontrado
o que ainda estou à procura: a missão.

PS: não é um poema.
É um desabafo ao ritmo de uma canção.

Cume

Alcanço o cume.

Download: amazing.mp3

Cansado mas ileso, admiro pausadamente o alvorecer que se espraia ao longe. Tem a cor da face de uma criança, cor de pureza.

Anestesiado, contemplo novamente o horizonte belo e novo deste lugar. Verifico com a face atingida pelo calor, que o amanhecer vem num sopro de luz muito viva que acorda os que dormiam. Que acorda todos os que sofriam. Todos os que calavam dentro de si a dor de não conseguir ver.

Vejo braços no ar. Há figuras estranhas que se tornam erectas e humanas. Há mãos que ajudam os mais cansados. Há sombras que se dirigem àqueles que ainda não viram. Por toda a parte a luz se estende. De um foco único, de um só e magno ponto, transborda uma ígnea brancura. O novo dia das nossas vidas. O novo início das nossas histórias.

Ao longo de todo o horizonte se erguem aves canoras que cantam uma esperança imorredoura. É impossivel deixar de ouvir esta melodia penetrante. Vozes omnipresentes ecoam dentro de nós. Em mim ecoa um hino que não é só de sons. Todas as fibras do meu ser sentem este hino vibrar e transformá-las. Percorre-me uma mudança inevitável. Estendo os braços à emoção imensa. Fui abençoado.

Encontro-me momentaneamente sobre a minha vida com o propósito claro de render graças a tudo o que somos. Não há dor, não há doença, não há mágoa, não há ferimento que corrompa a certeza de que me devo cumprir. Que não há fim, não há destino, não há verdade para além de que caminhamos rumo à felicidade.

Estou num lugar onde partir é chegar. Obrigado.

O regresso à viagem

“Tudo é Fado
Tudo é vida
Tudo é amor sem guarida”
(É Noite na Mouraria, Kátia Guerreiro)

ines

Depois do hiatus – como diz a minha irmã – o regresso natural. Não fiz silêncio por forças maiores, menores, temporárias, triviais ou absolutas. É que falar é a minha forma mais secreta de calar (Lia Luft). E calar é falar tudo sem poder.

regresso

Obrigado pelo gesto vincado de voltar. Seja bem-vindo de volta à viagem.

Parabéns

aniversário inês

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