Opacidades reveladas

Falar é o meu jeito mais secreto de calar

Categoria: Família

Protegido: Carta ao meu amigo/a

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Filhos,

Filhos amados,
Todos os dias são especiais por causa de vocês.

Quando pensamos em vós, sentimos uma alegria enorme e sorrimos imediatamente.
É uma alegria tão grande. Enorme. Como um sol que dentro de nós brilha sem parar.
Um sol quente e luminoso, meigo e carinhoso, como o amor que sentimos por vocês.
Queremos que saibam que estejam na escola, em casa ou no outro lado do mundo, estão sempre a brilhar dentro do nosso coração. E por isso sorrimos. Sorrimos de orgulho dos nossos filhos.

Um bom dia na escola,
Muitos beijinhos e abraços da Mamã V. e do Pai H.

Vida soprada

Um dia a minha mãe disse-me que achava que eu ia ter mais um irmão. Assim mesmo: “Helder, acho que estou grávida. Acho que vais ter mais um irmão.”. E dizia-o placidamente, mãos sobre as pernas, olhar solto pelas fotografias da casa.

Dizia-o como se a hipótese de gerar um sopro de vida fosse como adivinhar a mudança de tempo ou planear o próximo passeio de fim-de-semana. Dizia-o como o sente: era possível que estivesse grávida, que viesse a ser ainda mais mãe (agora x4). E ser mãe é para si a condição mais natural e intrínseca de viver. Mais ainda do que ser mulher.

Fui seguindo a sua gravidez, osculando o seu ventre saliente, promontório de vida. Admirar ambas (a minha mãe e a nova vida soprada) era uma emoção que me cercava como a respiração quente de alguém no nosso ouvido: fazia cócegas. Fazia-me cócegas a mão que colocava atrás, nas costas, para amparar o peso novo. Fazia-me cócegas a mão que punha a dançar sobre a gravidez quando se distraía. Fazia-me cócegas a felicidade em que vivia. Fazia-me cócegas porque a bebé a nascer existia já. Imperecivelmente, invisivelmente, inultrapassavelmente, ela conversava já, dormia já, assistia televisão já, sentia já. E era já real entre nós, connosco, em nós. Era já. Era já a Inês.

Três dias antes da sua chegada programada, levo a minha mãe ao Hospital para uma consulta de rotina. Sexta-feira, dia 19 de Agosto, 17 horas da tarde. Enquanto nos sentamos ao lado de pais ansiosos ou simplesmente expectantes e esperamos pelo resultado das análises, a minha mãe difunde pelas grávidas inexperientes ao redor, em jeito de serviço público, a sua profunda sabedoria na matéria. Asseverava: “Não se preocupe que isso é comum.” ou “Depois do meu primeiro isso também me aconteceu.”. Conselhos como estes eram o início de longas explicações e viagens pela sala de partos, pelo recobro ou pelo quarto de bebé.

Já com os resultados na mão, o médico chama-a para as palavras finais antes do grande momento que seria o nascimento da Inês, daí a três dias. Meia hora mais tarde, quando eu já pensava no jantar, o médico abre a porta da sala de consultas e solta para o ar, também de forma plácida: “ a sua mãe vem já aí.”. Respondo-lhe “ok”, levanto-me e pego na mala dela enquanto espero vê-la sair da sala. O médico assina uns papéis e regressa para o interior do seu gabinete. Espero. Espero mais um pouco. Confuso com os olhares demorados dos futuros pais e mães sobre mim, relembro as palavras do médico… Afinal o que ele disse foi: “a sua mãe vai ficar aqui.”.     Eram 21 horas. E eram horas da Inês nascer.

Atordoado, nervoso, feliz, inexplicavelmente ansioso (…já tinha esperado tanto tempo), felicitei a minha mãe, beijei-lhe, desejei-lhe que tudo corresse bem e voltei para a sala de espera. Dentro de momentos a Inês estrear-se-ia. A emoção era tão incontrolável que embargava a garganta. Queria que todos soubessem que ela estava prestes a permanecer entre nós. Dentro de momentos seria tangível e imutavelmente, parte da vida de todos. Conta quem lá esteve esperando a meu lado (amigos teimosos e verdadeiros) que eu sorria despudoradamente, que fixava esgazeadamente um ponto inexistente no tecto e que articulava um discurso de vocabulário reduzido e ideias nebulosas. É que desta vez não seria só irmão. Agora, doravante, para sempre, eu estava a ser irmão-pai.

Ás 02h33 da manhã de sábado, dia 20 de Agosto de 2005, os médicos que as acompanham, acordam-na. Desperta do sono da gestação, imersa no sono novo do ser humano.

Vê-la pela primeira vez tornou-a mais importante que tudo o que importa. Sem que pudesse tomar consciência, um laço impalpável mas mais real, solene e importante que tudo o que tenho ou sou nesta existência, uniu-nos para nunca nos apartar. Instantaneamente, inescapavelmente, incondicionalmente, amo-a. Serei seu irmão sempre. Protegê-la-ei para além de mim mesmo. Dar-lhe-ei a minha mão, o meu abraço, a minha palavra, a minha emoção, a minha vida. Vida afora, a Cristina, o José, o Wilson, a Ligia e a Inês, meus pais, irmãos e filhos, estão para mim além de mim mesmo.

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